Ensinar e aprender pode transformar-se numa experiência de ócio

nov 21, 2012

A sensação de liberdade, de um voltar-se a si e de apreensão de conhecimento são características fundamentais da experiência de ócio que podem regenerar o ser humano da aceleração, da fluidez das coisas e do consumo exagerado, proposições comuns às culturas contemporâneas que podem causar ansiedade, cansaço, stress e diversas doenças psíquicas.

Sabemos que o descanso (tanto físico quanto mental) proporciona um equilíbrio essencial para o bom desempenho de atividades que envolvem a aprendizagem. Segundo Cuenca (2000), uma das dimensões da experiência de ócio refere-se ao aspeto lúdico. A ludicidade insere fantasia, distração e uma conceção secundária da realidade, o que pode gerar um estado de ânimo e exaltação. Estimular essas sensações revigorantes pode ser um recurso importante de preparação da mente para o processo de aprendizagem.

Transmitir conhecimento através da ludicidade é uma forma recorrente na prática docente das doutorandas em Estudos Culturais e professoras Ana Evaristo, Inês Gamelas e Natália Lameiras. Ambas trabalham com o ensino de línguas e culturas e consideram que as suas atividades profissionais proporcionam experiências de ócio enriquecedoras tanto para quem ensina quanto para quem aprende. Apoiada em elementos lúdicos que auxiliam a aprendizagem, Ana salienta que “o lúdico é fundamental na faixa etária na qual leciono, dos 2/3 aos 10 anos, uma vez que sem esta componente lúdica, as crianças jamais se sentem motivadas para a aprendizagem da língua inglesa”. Ana sente o seu trabalho como uma experiência de ócio, e, muitas vezes, simplesmente como um momento de lazer, já que, durante as aulas, costuma contar histórias, apresentar imagens e sons ou criar encenações teatrais como meio de apresentar o conteúdo e, assim, acaba por se sentir envolvida emocionalmente com as atividades e as crianças.

Assim como Ana, Inês e Natália são apaixonadas pelas suas profissões, desenvolvendo-as com muita liberdade, o que pode gerar experiências de ócio durante o desempenho do trabalho. Inês acredita que “enquanto professora – ou aprendiz de professora, porque, todos os dias, aprendo algo de novo para poder ensinar – costumo seguir o lema de um dos meus antigos professores que diz ‘ensinar é semear o futuro’. É efetivamente neste lema em que acredito sempre: entrar numa sala de aula, tentando transmitir da forma mais clara e lúdica possível os conhecimentos da língua e cultura alemãs”. Natália refere que dar aulas não se resume a uma atividade ou obrigação laboral, pois além de ensinar e aprender todos os dias com alunos de diferentes nacionalidades e culturas, e de ter contacto com a sua língua materna (a língua francesa), ainda pode ver o progresso e a satisfação de seus alunos, o que torna o seu ofício extremamente gratificante.

O facto de vivermos atividades ou situações inovadoras no contexto quotidiano pode recriar as rotinas de trabalho ou de estudo e assim proporcionar experiências de ócio. As professoras Ana, Inês e Natália convivem recorrentemente com o novo. Seja pela atividade lúdica desempenhada nas aulas, que propõe a quebra da realidade e o contacto com o inesperado, seja pela partilha de informações e pelo processo de aprendizagem delas próprias ao ensinarem e aprenderem com seus alunos. O resultado disso é percebido nos depoimentos dessas profissionais tão realizadas e, possivelmente, deve ser sentido pelos alunos que aprendem a brincar de forma livre e alegre.